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Queer/Cuir Américas: Tradução, Decolonialidade, e o Incomensurável

Editores: Joseph M. Pierce (Stony Brook University), Maria Amelia Viteri (Universidad San Francisco de Quito), Diego Falconí Trávez (Universitat Autònoma de Barcelona/Universidad San Francisco de Quito), Salvador Vidal-Ortiz (American University), Lourdes Martínez-Echazábal (Universidade Federal de Santa Catarina)

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O expansionismo dos estudos queer norte-americano e europeu em toda a América do Norte, Central e do Sul e no Caribe levou a um fluxo predominantemente unidirecional das teorias e epistemologias queer. Essas abordagens têm sido frequentemente associadas a ideias e práticas metropolitanas, modernas, vanguardistas e/ou transgressoras em relação às questões tais como de identidades, corpo, desejo, afeto, direitos humanos, política, soberania e justiça erótica, bem como às feras gêmeas denominadas democracia e neoliberalismo. Ressaltar esse fluxo unidirecional, que necessariamente nos remete ao projeto imperial europeu e norte-americano, não pretende, de maneira alguma, apagar práticas poderosas antropofágicas e Calibanescas, tradições de dissidência e insurgência, ou negar o que Antonio Cornejo Polar chama de “heterogeneidade contraditória” das Américas. No entanto, deve-se considerar que as diferenças contextuais da teoria queer ainda não foram totalmente abordadas, apesar da existência de um crescente corpus de trabalho em tradução.

Este, no entanto, não pretende ser uma edição em ou sobre tradução. Em vez disso, queremos questionar a tradução e sua política de (in)visibilizar certos corpos e geografias, e lançar luz sobre as histórias queer/cuir que confrontaram o olhar imperial, ou que permanecem intraduzíveis. Queremos, neste sentido, interrogar a intermediação do conhecimento cultural e acadêmico, bem como as fissuras e formas intraduzíveis (gestos, olhares, línguas) que surgem como resultado da densidade de certos encontros por meio das diferenças. A produção, a circulação e a transformação do conhecimento são políticas, e a política, por sua vez, influencia quais estudos acumulam e como acumulam valor acadêmico. Que lógicas culturais, disciplinares ou de mercado servem para destacar ou, ao contrário, ignorar a produção artística cuir individual, coletiva, ou arquivística? Que tipo de conhecimento cuir reside nas sombras das teorias queer anglófona e francófona e por quê residem neste lugar?

Esta edição especial procura reunir corpos e formas de conhecimento que foram excluídos do processo de canonização dos estudos queer, da forma que têm sido consolidado em universidades nos EUA e na Europa. Ao mesmo tempo busca saber se determinadas tradições regionais ou nacionais (ou da diáspora) têm privilegiado certos tipos de textos quer/cuir na América Latina e no Caribe. Deste modo, procuramos reunir ativistas, artistas e acadêmicxs trabalhando a partir dos estudos cuir/queer, estudos de gênero e sexualidade, feminismos interseccionais, assim como os estudos decoloniais e os estudos migratórios entre as múltiplas Américas.

Com essa edição especial do GLQ, perguntamos: como formas de investigação envolvendo um conjunto aparentemente tão díspar de ações, respostas ou mobilizações para os desafios da heterossexualidade compulsória—o que Ochy Curiel chama de heteronación—se engajam na política da tradução? Quais textos são traduzidos e por quê? O que deve ser feito com o problema central e às vezes intransponível da intraduzibilidade? E há alguma coisa a ser obtida ao manter a opacidade queer/cuir no campo do intraduzível?

Como novas realidades geopolíticas promovem tropos de marginalização que deslegitimam os estudos queer/cuir? Quais artistas visuais, performers, ou outras colaborações são ocultadxs do foco da atenção voltada à autoria única e à literatura que predominam nos chamados “estudos de área” (estudos regionais) e nas ciências humanas? Como as figuras e as colaborações negras e indígenas residem fora de uma definição imperial do queer/cuír?

Como a interação de activismos, trabalhos acadêmicos, engajamentos artísticos e ações políticas colide com uma análise de preconceitos de classe, com retos (desafios) lingüísticos, com saberes eróticos concorrentes? Como o queer/cuir mobiliza (e suscita) histórias, desejos, objetos e discursos em um contexto hemisférico americano? Que redes inter- e contra-regionais de circulação do conhecimento questionam as relações hegemônicas entre o ativismo queer/cuir e a historiografia? Que tipos de pedagogias e estratégias de ensino emergem em condições de acesso limitado aos canais de produção acadêmica e artística?

No caso da América Latina, as avaliações contemporâneas da teoria queer têm perguntado se ela repete as práticas expansionistas neoliberais e pós-coloniais que espelham outras intervenções teóricas, tais como o feminismo da segunda onda, a teoria da deconstrução e o materialismo histórico. Queremos perguntar também onde os feminismos Chicano/x e Latino/x, a teoria crítica do queer of color, os estudos de migrações queer, os estudos radicais da negritude, os estudos black quare ou os estudos indígenas queer se encaixam nesses esforços para contestar a homogeneidade dos estudos queer como um campo de estudo hegemônico em um contexto hemisférico? Além disso, queremos fundamentar a historicidade do queer em consonância com corpos e desejos que lhe dão sentido e contextualizar a mobilidade destes corpos e a imbricação mútua de discursos, afetos e epistemologias; seus fluxos, emergências e transformações. Como explicamos as transformações da teoria e da prática, enquanto atendemos às dissidências, a inconformidade, das traduções cuir do queer?

Ao abordar essas questões, esta edição do GLQ busca articular contra-genealogias e rotas geopolíticas alternativas do conhecimento. Assim, buscamos ensaios acadêmicos, ensaios pessoais, testemunhos, entrevistas e trabalhos criativos que exploram os seguintes temas:

Decolonialidade: Para perguntar o que a interface de estudos queer e decolonialidade pode significar como horizonte epistemológico, propomos um contrapuento cuir, um conjunto de trocas que posicionam os estudos queer/cuir como uma dobradiça que reconhece o posicionamento político de subjetividades e ontologias sexo-dissidentes e que permitem abrir portas para o pensamento americano (no sentido inter-hemisférico) com capacidade suficiente para criticar as persistentes desigualdades do presente, incluindo o que conta como estudos queer/cuir e o que conta como decolonial.

O corpo: Estudiosos, ativistas e artistas nesta edição poderão propor diversos modos de pensar com o corpo e suas iterações, a linguagem e suas traduções, as proximidades e seus afetos, o outro racializado fora do contexto acadêmico dominante, o exercício vivido do desejo e da justiça erótica, a fim de expandir como as categorias sociais que circulam sob o signo do cuir/queer interagem com os contextos particulares em que o queer surge, é contestado, na tradução, desigual e, ainda assim, familiar.

O Incomensurável: Ao explorar os encontros de diversos idiomas, práticas culturais, corpos e desejos nas Américas, esta edição especial quer abrir ou re-imaginar os horizontes possíveis para reformular como os diálogos inter-hemisféricos se percebem e se expressam. Apesar da proposta de Boaventura de Sousa Santos de que a tradução intercultural deveria tornar explícita as demandas relacionais da tradução, a fim de traçar novas constelações de significado como um caminho para a justiça cognitiva, será realmente possível uma tradução intercultural do queer? Existem graus para a comensurabilidade da cognição, corporalidade, carnalidade e desejo? Ou, além disso, existem potencialidades e formas emergentes de entendimento material, carnal que indicam alternativas ao in/comensurável?

Essa edição será preparada em colaboração com uma revista acadêmica latino-americana. Na tentativa de diversificar e disseminar uma ampla gama de vozes e abordar as hierarquias de produção de conhecimento, incluiremos artigos acadêmicos, bem como um fórum que envolva diferentes tipos de expressão ativista e artística. Nós autores desta chamada viemos de diversos campos disciplinares; alguns estudaram e lecionaram na América Latina (a região andina em particular), bem como nos EUA e na Espanha. Abordamos as fontes e trajetórias por trás dos estudos queer/cuir de diferentes maneiras; também colaboramos com audiências, escritores, artistas e organizações não-acadêmicas de maneiras que complicam os limites do conhecimento, bem como sua institucionalização e custódia. Assim, convidamos colaborações que promovam a reflexão e o engajamento da academia e além, através das Américas.

Os textos podem ser enviados em espanhol, português ou inglês.
Visite http://www.cuiramericas.org para mais informação, ou ao email: cuiramericas@gmail.com.

Trabalhos citados

Cornejo Polar, Antonio. Escribir en el aire: Ensayo sobre la heterogeneidad sociocultural en las literaturas andinas. [1994] Lima: CELACP, 2003.

Curiel, Ochy. La nación heterosexual: Análisis del discurso jurídico y el régimen heterosexual desde la antropología de la dominación. Bogotá: Brecha Lésbica & en la frontera, 2013.

De Sousa Santos, Boaventura. Epistemologies of the South: Justice Against Epistemicide. New York: Routledge, 2014.